Caminhada: Ponte do Porto – Santuário da Senhora da Abadia
Um bom dia para caminhar, sem chuva, algum resto de
nevoeiro, o sol matinal espreitando por entre nuvens, temperatura de inverno
sem sobressaltos (cerca de 6º - 12º).

As antigas vias rurais da peregrinação cederam a
convenientes e circunstanciais traçados urbanos, pavimentados, quase sempre
insuflados, moderadamente, pela oxidação da mobilidade mecânica, até
mergulharmos salutarmente na ruralidade de outros tempos e na subida final da
encosta florestada.
Nichos, alminhas, ermidas, ribeiros, fontenários, prados,
animais em pasto, recantos de laranjais constantes e pejados, igrejas
paroquiais e mosteiro, suavizaram e deleitaram nossa marcha e olhares em cerca
de 14 km percorridos.
Em Dornelas, freguesia balizada por dois ribeiros,
deparamo-nos com informação sobre um seu trilho específico local – o PL4 - um
percurso de pequena rota de 11 km que, partindo do Ribeiro da Mamoa, circunda
parcialmente o Monte de Santiago, passa junto à Torre Medieval de Outeiro e
proporciona uma visão panorâmica sobre o Rio Cávado a nascente.
Uma paragem técnica em Santa Marta de Bouro para a
conveniente hidratação, reforço alimentar, gerenciar mais autonomia para o
caminhar seguinte.
Tomamos o rumo da Rua da Martinga, o mesmo do ancestral
caminho de S. Bento, fomos subindo, por enquanto suavemente, por entre
edificados rurais de outros tempos, campos, fontes, nichos, sempre os animais
em pasto e os recantos de citrinos, manifestando-se o Mosteiro de Santa Maria
de Bouro mais à frente e ao fundo do nosso lado direito, a nascente,
serpenteando nossos passos, e subindo, e descendo um pouco para o “Jardim
Encantado” que um lisboeta por ali dispersou divertidos simulacros de duendes
junto à linha de água do regato, e subindo modestamente até nos depararmos com,
essa sim!, a Calçada do Rebentaço.
Agora, nestes últimos quilómetros, que não me surja qualquer dor regional da anca como a que me surpreendeu na caminhada com os Amigos do Mosteiro de Rendufe em outubro de 2016, no decurso deste lajedo granítico ascendente. Em curvas e contracurvas atingimos a zona das capelas, ultrapassamos os obstáculos das obras em curso sobre os desmoronamentos do muro (lado direito) e do pavimento da via.
Chegados ao terreiro do santuário, caminhamos por entre os
dois “quartéis” e casa das ofertas dos romeiros e visitamos o majestoso templo:
o Santuário da Senhora da Abadia, um edificado do séc. XVIII que foi antecedido
por um ermitério em ponto mais alto (o de S. Miguel, séc. VI) que as guerras
com árabes provocaram abandono e despovoamento, e retoma posterior.
“A história do Santuário de Nossa Senhora da Abadia não se
pode desligar da história do Mosteiro de Santa Maria de Bouro [distam cerca de
4 km], local onde ficavam os monges [cistercienses] que habitavam junto do
Santuário e que zelavam pela sua conservação e engrandecimento” (in folheto do
Santuário).
Em destaque a grande romaria de 6 a 15 de agosto, a atração
peregrina e turística, e a expansão deste culto por outras terras,
particularmente no Brasil, onde templos, ermidas e entidades adotantes como
padroeira, a partir da segunda década do séc. XVIII (Baía, Goiás, Minas
Gerais…, S. Paulo) tomaram e projetaram seu nome e culto.
Terminamos esta jornada com uma visita (e almoço) à altiva e
panorâmica aldeia terrabourense de Santa Isabel do Monte, local conhecido por
vários caminheiros presentes em razão do Trilho dos Moinhos (PR12) que percorre
outras aldeias de montanha e os seus 28 moinhos de rodízio dispersos pelas chãs
e ribeiros locais.
Regressamos a São Martinho de Tibães.
Organização, logística e condução da caminhada pelo GAMT – Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães.
Texto e fotos (iphone) Manuel Duarte / Ver em Silva Manuel

















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