Caminho de São Bento da Porta Aberta no Cávado - 4ª Etapa, 17.jan.2026

Caminhada: Ponte do Porto – Santuário da Senhora da Abadia


Um bom dia para caminhar, sem chuva, algum resto de nevoeiro, o sol matinal espreitando por entre nuvens, temperatura de inverno sem sobressaltos (cerca de 6º - 12º).


Retomamos o percurso no mesmo local terminado na etapa anterior: Ponte do Porto (ou “Ponte de Prozelo”), reconstrução de cerca do séc. XIV (“porto”, como local de passagem). Por ela transpusemos o rio Cávado para o município de Amares em dia de caudal médio de inverno. O substancioso e dinâmico espelho de água a jusante e a montante, o firmamento de nuvens esparsas e os matinais raios de sol assoberbavam nossas objetivas e enlevavam os acelerandos passos para N e, decididamente, para NE.

As antigas vias rurais da peregrinação cederam a convenientes e circunstanciais traçados urbanos, pavimentados, quase sempre insuflados, moderadamente, pela oxidação da mobilidade mecânica, até mergulharmos salutarmente na ruralidade de outros tempos e na subida final da encosta florestada.

Nichos, alminhas, ermidas, ribeiros, fontenários, prados, animais em pasto, recantos de laranjais constantes e pejados, igrejas paroquiais e mosteiro, suavizaram e deleitaram nossa marcha e olhares em cerca de 14 km percorridos.

Em Dornelas, freguesia balizada por dois ribeiros, deparamo-nos com informação sobre um seu trilho específico local – o PL4 - um percurso de pequena rota de 11 km que, partindo do Ribeiro da Mamoa, circunda parcialmente o Monte de Santiago, passa junto à Torre Medieval de Outeiro e proporciona uma visão panorâmica sobre o Rio Cávado a nascente.


Em Goães, a presença peregrina da capela devotada a S. Lourenço, à Senhora do Livramento e à Senhora do Fastio, com data de obras de 1875 e seu sobrevivente vetusto sobreiro à ilharga, agora premida pela estrada asfaltada, mas outrora, quando pela primeira vez por ali peregrinei no mesmo sentido, de noite, cerca do ano de 1957, era estreita, em terra-chã, o breu quebrado pela chama interior das velas devotas.

Uma paragem técnica em Santa Marta de Bouro para a conveniente hidratação, reforço alimentar, gerenciar mais autonomia para o caminhar seguinte.


Tomamos o rumo da Rua da Martinga, o mesmo do ancestral caminho de S. Bento, fomos subindo, por enquanto suavemente, por entre edificados rurais de outros tempos, campos, fontes, nichos, sempre os animais em pasto e os recantos de citrinos, manifestando-se o Mosteiro de Santa Maria de Bouro mais à frente e ao fundo do nosso lado direito, a nascente, serpenteando nossos passos, e subindo, e descendo um pouco para o “Jardim Encantado” que um lisboeta por ali dispersou divertidos simulacros de duendes junto à linha de água do regato, e subindo modestamente até nos depararmos com, essa sim!, a Calçada do Rebentaço.


Agora, nestes últimos quilómetros, que não me surja qualquer dor regional da anca como a que me surpreendeu na caminhada com os Amigos do Mosteiro de Rendufe em outubro de 2016, no decurso deste lajedo granítico ascendente. Em curvas e contracurvas atingimos a zona das capelas, ultrapassamos os obstáculos das obras em curso sobre os desmoronamentos do muro (lado direito) e do pavimento da via.


Oito capelas hexagonais, do séc. XVIII, alinhadas em forma de via-sacra, com esculturas policromadas representando os passos da vida de Cristo e da Virgem. Entremeadas por outras sete menores, do séc. XVII, quadrangulares, representando os passos da Paixão.

Chegados ao terreiro do santuário, caminhamos por entre os dois “quartéis” e casa das ofertas dos romeiros e visitamos o majestoso templo: o Santuário da Senhora da Abadia, um edificado do séc. XVIII que foi antecedido por um ermitério em ponto mais alto (o de S. Miguel, séc. VI) que as guerras com árabes provocaram abandono e despovoamento, e retoma posterior.


“A história do Santuário de Nossa Senhora da Abadia não se pode desligar da história do Mosteiro de Santa Maria de Bouro [distam cerca de 4 km], local onde ficavam os monges [cistercienses] que habitavam junto do Santuário e que zelavam pela sua conservação e engrandecimento” (in folheto do Santuário).

Com a fama de seus milagres, a imagem da Senhora da Abadia era disputada pelos frades do Mosteiro e reivindicada a sua presença amiúde na amenidade da montanha, a ponto de o povo a designar por “a vadia” (Abadia), segundo menção de humor de Arlindo Ribeiro da Cunha (P.e/Cónego) na sua “Senhora da Abadia / Monografia Histórico-Descritiva”, 3ª edição, Amares - 2019, p. 79).

Em destaque a grande romaria de 6 a 15 de agosto, a atração peregrina e turística, e a expansão deste culto por outras terras, particularmente no Brasil, onde templos, ermidas e entidades adotantes como padroeira, a partir da segunda década do séc. XVIII (Baía, Goiás, Minas Gerais…, S. Paulo) tomaram e projetaram seu nome e culto.


Terminamos esta jornada com uma visita (e almoço) à altiva e panorâmica aldeia terrabourense de Santa Isabel do Monte, local conhecido por vários caminheiros presentes em razão do Trilho dos Moinhos (PR12) que percorre outras aldeias de montanha e os seus 28 moinhos de rodízio dispersos pelas chãs e ribeiros locais.


Regressamos a São Martinho de Tibães.


Organização, logística e condução da caminhada pelo GAMT – Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães.


Texto e fotos (iphone) Manuel Duarte / Ver em Silva Manuel






























Sem comentários:

Enviar um comentário