Ao Encontro de Patrimónios – Evocando Legados, 21.fev.2026

  “(…) é salutar irmos ao encontro da Arte. A arte, para além do papel que desempenha na construção da nossa identidade cultural, de unir as pessoas e promover o diálogo, é peça fundamental para a nossa saúde mental, proporcionando o alívio do stresse e o bem-estar emocional.” (da missiva endereçada pelo Conselho Diretor do GAMT – Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães – aos associados e amigos, como prólogo ao percurso deste dia:

. conhecer os legados culturais das monjas cistercienses do Mosteiro de Santa Maria de Arouca (séc.s XII a XIX)

. e do Sr. Henrique de Amorim (1902-1977), benemérito e industrial “corticeiro”, grande colecionador e fundador do Museu de Santa Maria de Lamas.


1ª Visita (manhã) - MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE AROUCA


Imponência de um edifício de traça setecentista, manifestando o muito poder que teve ao longo de séculos e que, felizmente, chegou aos dias de hoje de cabeça erguida e albergando muito do que foi seu recheio monástico.


Suas origens são anteriores à nossa nacionalidade: remontam à primeira metade do séc. X.


Dedicado inicialmente a S. Pedro e S. Paulo, adotou, no séc. seguinte, a regra beneditina (hábito escuro). Com a chegada dos monges cistercienses ao Condado Portucalense em 1140, o mosteiro de Arouca torna-se o primeiro estabelecimento desta Ordem. Estes monges (hábito claro) trazem consigo a arquitetura gótica numa fase em que se encontram ativos os estaleiros românicos de catedrais nas cidades de Coimbra, Porto, Lisboa e Lamego.


Por estas décadas ocorrem acontecimentos de relevância: o início da nacionalidade portuguesa (1143), o início da construção da catedral de Notre-Dame (Paris, 1163), o reconhecimento da nacionalidade de Portugal pelo Papa Alexandre III (1179), o “Magnus Liber” (primeiro repertório escrito de música que documenta a evolução do canto gregoriano ao polifónico, de mestres de escola de Notre-Dame, 1160-1190), a terceira cruzada cristã após a tomada de Jerusalém pelo sultão muçulmano Saladino…


Em 1154 o Mosteiro torna-se exclusivamente de freiras

Pelos finais deste século a instituição vive sem problemas, mas em 1203, com a morte da abadessa Elvira Anes, o mosteiro é integrado nos bens da Coroa, por razões que se desconhecem.

Em 1220 o monarca D. Sancho I doou-o a sua filha Mafalda Sanches (1195-1256). Esta infanta portuguesa que viu anulado pelo Papa o seu casamento com Henrique I de Castela (rei aos 10 anos, tendo falecido com 13) integrou a comunidade arouquense com cerca de 25 anos, contribuindo forte e decisivamente para o engrandecimento e identidade deste mosteiro de monjas aristocratas e da localidade ao longo dos tempos.

Daí o “Largo de Santa Mafalda” na entrada do edifício, o de “Rainha Santa Mafalda” como padroeira de Arouca e o de tantas outras referências locais no comércio, indústria, instituições, cultura, lendas… Não terá professado para não perder lugar de Rainha, de poder, de influência e de independência da Igreja dentro e fora do mosteiro. Mas Mafalda Sanches foi apenas beatificada (1793): Beata Mafalda na verdade.


O mosteiro sofreu várias transformações ao longo dos séc.s XVII e XVIII, de que resultaram na sua atual configuração. É conhecido pela sua rica coleção de arte sacra e por desempenhar um forte enfoque cultural, educativo, recreativo, turístico e religioso como monumento central na vida da região.

Iniciamos a visita guiada pela sala da memória (com vídeo comentado sobre suas origens e passado histórico), pelos parlatórios/locutórios (dez!, todos com roda que permitia a troca de artigos com os visitantes), portaria, claustro, refeitório, cozinha, sala do capítulo, antecoro, coro das monjas, igreja, museu. Cada espaço com suas funções específicas monacais, convergindo para a centralidade do claustro como lugar de silêncio e de oração, igualmente de repouso, de contemplação da natureza, fazendo a transição entre o espiritual (igreja e coro - a norte) e o temporal (cozinha, refeitório, celeiros, arrecadações, horta – a sul).

Impressiona-nos imaginar o fervilhar quotidiano desta “colmeia” e dos servidores que a apoiaram ao longo de cerca de 700 anos, bem como de artistas, oficinas e de mestres que lhe deram grandeza - uns tantos famosos vindos de outros locais e de longe, como o caso do arquiteto Carlo Gimac, da Ilha de Malta (para o projeto da igreja).


A igreja, construída entre 1704 e 1730, com seu magnífico altar, retábulos de talha-dourada, cadeiral, órgão, coro das monjas, túmulo da Beata Mafalda, esculturas em pedra-ançã (fácil de trabalhar).

As monjas provêm de famílias aristocratas: dispõem de um fabuloso coro para os atos de culto. Foi construído a seguir às obras da magnífica igreja (benzida no dia 20 de outubro de 1718), e se compõe de um luxuoso cadeiral barroco em madeira de jacarandá (proveniente do Brasil) com 104 assentos/“misericórdias” dotados de rosto/carrancas (ano 1725) e de um majestoso órgão ibérico de 24 registos e 1352 tubos/vozes (ano 1743).


O museu conserva um dos melhores e substanciais acervos regionais de arte sacra do país (cerca de cinco centenas de peças, duzentas expostas), com pintura, escultura, mobiliário, prataria, ourivesaria, tapeçaria, paramentaria, documentação. Aqui se situa a biblioteca memorial D. Domingos de Pinho Brandão e a Real Irmandade Rainha Santa Mafalda que neste ano de 2026 comemora o 140º aniversário.


Além de Carlo Gimac, outros nomes de artistas poderíamos evocar: Luís Vieira da Cruz e Jacinto Vieira (brg), André Gonçalves (lx), Manuel Cerqueira Mendes, João Nunes de Abreu, José Francisco de Paiva (prt), António Faria Soares, António Gomes e Filipe dos Santos (prt), Manuel Bento Gomes, João Ruão, José da Fonseca Lima, Diogo Teixeira, Bento Coelho da Silveira, iniciais IFS, SV, Josefa de Óbidos, escola de Viseu/Grão Vasco, Manuel Benido Gomes Herrera (Valladolid),

Classificado como Monumento Nacional desde 1910, o edificado é propriedade e tutela do Estado português sob a responsabilidade do Património Cultural (IP) que em colaboração com a Câmara Municipal de Arouca e da Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda de Arouca (RIRSMA) garantem a gestão do monumento.

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Organização e conduta da visita:


Conselho Diretor do Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães (GAMT).

Texto (baseado em informações dos guias que conduziram a visita, no roteiro virtual e no guia da visita interativa (patrimóniocultural.gov), em desdobráveis impressos, numa edição da Real Irmandade da autoria de Pedro Dias, entre outros) e fotos:


Silva Manuel / Manuel Duarte / Ver em Silva Manuel



2ª Visita (tarde) - MUSEU DE SANTA MARIA DE LAMAS


Findo o almoço na vila de Arouca, seguimos para O/NO, em direção à vila de Santa Maria de Lamas para visita ao museu local.


Aí chegados atravessamos o parque-jardim, ladeando o campo da memória (à direita), tendo a igreja paroquial mais ao fundo, a estátua a Cristo-Rei ao centro e, do lado esquerdo, edificados, figurados e esparsas pedras de monumentos em frente ao edifício do Museu de Lamas, conhecido também por: Museu de Santa Maria de Lamas, Museu de arte sacra Henrique Amorim, “Domus Aurea (casa dourada): arquivo de fragmentos de arte”, Museu Comendador Henrique Amorim, Museu da Cortiça…

Idêntico cenário ao que conheci quando, no relativamente distante ano letivo de 1981/82, exerci funções de delegado de Português à profissionalização em exercício no Colégio acoplado. Ao tempo o museu tinha reduzida relevância como entidade visitável e usufruível. Havia notoriedade no seu recheio, mas ficávamos sobretudo pela visita ao salão de artefactos de cortiça que quase se amontoavam perante os visitantes, mesmo assim constituindo orgulho do diretor– o bracarense Dr. António Joaquim Vieira, fundador do Colégio, seu diretor e do Museu, e quadro administrativo da Casa do Povo.


O edifício é constituído por dois pisos: o superior (ao nível da entrada exterior) e o inferior. No total são 16 salas, cada uma com sua designada temática:


Oratórios, Senhora do Ó, da Capela, Evangelistas, Presépios, Galeria do Fundador, Etnografia, Gabinete de Ciências Naturais, da Cortiça (pavilhão), Escultores, da Capela de Delães…,

recheadas de arte sacra, gravura e litografia, paramentaria, alfaias litúrgicas, ex-votos, tapeçaria e bordados, cerâmica, objetos de uso quotidiano, relojoaria, papel-moeda e numismática, iconografia do fundador, pintura contemporânea, armaria ibérica, lustres e candelabros, insígnias honoríficas, falerística, mobiliário, artefactos indo-portugueses e “chinoiseries”, instrumentos musicais, “artes decorativas”, etnografia portuguesa, estatuária contemporânea, fragmentos ciências naturais, escultura em cortiça e derivados, arqueologia industrial, mecanismos de transformação da cortiça…


A partir da receção, a responsável pelo serviço educativo introduziu-nos na história deste edifício, do seu fundador, Henrique Alves Amorim, no recheio do museu e conduziu-nos paulatinamente de sala em sala, em interação do recheio e visitantes.


A fundação e início da construção do edifício e museu remontam à década de 50 do séc. XX, promovidos por Henrique Amorim, “benemérito e industrial ‘corticeiro’, grande colecionador e fundador do Museu de Santa Maria de Lamas”. De 1950 a 1953 é o período de maior recolha e aquisição. Em 1959 o fundador procedeu à doação deste espaço construído e espólio à Casa do Povo da freguesia em preito ao desenvolvimento cultural da freguesia e da sua população. Cerca de 1968 ´é concluída a segunda fase construtiva. Entretanto falece Henrique Amorim com cerca de 75 anos (1902-1977) e segue-se um longo período de 27 anos de “semi-adormecimento”.

A partir de 2003-2004 a direção da Casa do Povo inicia o “Projeto de Reorganização…” e recorre a um protocolo com a Universidade Católica. De seguida é criado um Quadro Técnico de pessoal (2005) e o Serviço Educativo (2006) como estratégia para dinamização de ações e de integração na comunidade, na região e no país. Segue-se a fase de credenciação do Museu na Rede Portuguesa de Museus (2009) - conseguida em Diário da República (2018) -, e a renovação da sinalética interna e externa (2011).

O Museu alberga alguma maquinaria dos primórdios do fabrico de rolhas e afins, sugerindo o “modus operandi” na transformação.


“Resultante de um ímpeto pessoal assente na recolha quase compulsiva de objetos multidisciplinares, inspirado nos ‘espíritos’ colecionistas (…) dos séc.s XIX para o XX, (…) a estruturação primitiva deste Museu seguiu e tentou aproximar-se da norma expositiva dos ‘Gabinetes de Curiosidades’ ou ‘Quartos das Maravilhas europeus dos séc.s XV a XVII. Verdadeiros espaços de exibição simultânea de objetos artísticos nobres e variados símbolos, fragmentos ou artefactos de cariz global. Reflexivos da riqueza histórica, científica, religiosa, populacional, natural, cultural, intelectual, social, geográfica, económica, etnográfica e material, da Humanidade e do Planeta Terra.”

– lê-se numa página do caderno de textos do Museu.

No seu todo o Museu atinge o patamar de


“espaço de reflexão, estudo, partilha e interpretação de uma realidade que moldou a história de uma terra; e de um património que acompanhou o gosto e a evolução secular de um país”

– lê-se numa outra das páginas do caderno de textos do Museu.

O antigo salão da cortiça, agora também espaço de auditório, estava preparado para, no dia seguinte (22 de fevereiro), dar lugar à 4ª edição do “Ciclo Música de Câmara” em atuação do Grupo “Prisma Quintet”, constituído por instrumentistas em clarinete, oboé, saxofone, clarinete baixo e fagote, para interpretação de “The arrival pf the queen of sheba”, “Circusmusiek” e “Balada e Mistério”.

Regressamos à cidade de Braga e S. Martinho de Tibães.

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Organização e conduta da visita:


Conselho Diretor do Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães (GAMT).

Texto (baseado em informações da guia que conduziu a visita, no caderno de textos / ilustrações do Museu, e em outras fontes (net) e fotos:


Silva Manuel / Manuel Duarte Ver em Silva Manuel



Fotos 1ª Visita




















Fotos 2ª Visita













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