“(…) é salutar irmos ao encontro da Arte. A arte, para além do papel que desempenha na construção da nossa identidade cultural, de unir as pessoas e promover o diálogo, é peça fundamental para a nossa saúde mental, proporcionando o alívio do stresse e o bem-estar emocional.” (da missiva endereçada pelo Conselho Diretor do GAMT – Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães – aos associados e amigos, como prólogo ao percurso deste dia:
. conhecer os legados culturais das monjas cistercienses do
Mosteiro de Santa Maria de Arouca (séc.s XII a XIX)
. e do Sr. Henrique de Amorim (1902-1977), benemérito e industrial “corticeiro”, grande colecionador e fundador do Museu de Santa Maria de Lamas.
1ª Visita (manhã) - MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE AROUCA
Imponência de um edifício de traça setecentista,
manifestando o muito poder que teve ao longo de séculos e que, felizmente,
chegou aos dias de hoje de cabeça erguida e albergando muito do que foi seu
recheio monástico.
Suas origens são anteriores à nossa nacionalidade: remontam
à primeira metade do séc. X.
Por estas décadas ocorrem acontecimentos de relevância: o
início da nacionalidade portuguesa (1143), o início da construção da catedral
de Notre-Dame (Paris, 1163), o reconhecimento da nacionalidade de Portugal pelo
Papa Alexandre III (1179), o “Magnus Liber” (primeiro repertório escrito de
música que documenta a evolução do canto gregoriano ao polifónico, de mestres
de escola de Notre-Dame, 1160-1190), a terceira cruzada cristã após a tomada de
Jerusalém pelo sultão muçulmano Saladino…
Em 1154 o Mosteiro torna-se exclusivamente de freiras
Pelos finais deste século a instituição vive sem problemas,
mas em 1203, com a morte da abadessa Elvira Anes, o mosteiro é integrado nos
bens da Coroa, por razões que se desconhecem.
Em 1220 o monarca D. Sancho I doou-o a sua filha Mafalda
Sanches (1195-1256). Esta infanta portuguesa que viu anulado pelo Papa o seu
casamento com Henrique I de Castela (rei aos 10 anos, tendo falecido com 13)
integrou a comunidade arouquense com cerca de 25 anos, contribuindo forte e
decisivamente para o engrandecimento e identidade deste mosteiro de monjas
aristocratas e da localidade ao longo dos tempos.
Daí o “Largo de Santa Mafalda” na entrada do edifício, o de
“Rainha Santa Mafalda” como padroeira de Arouca e o de tantas outras
referências locais no comércio, indústria, instituições, cultura, lendas… Não
terá professado para não perder lugar de Rainha, de poder, de influência e de
independência da Igreja dentro e fora do mosteiro. Mas Mafalda Sanches foi
apenas beatificada (1793): Beata Mafalda na verdade.
O mosteiro sofreu várias transformações ao longo dos séc.s XVII e XVIII, de que resultaram na sua atual configuração. É conhecido pela sua rica coleção de arte sacra e por desempenhar um forte enfoque cultural, educativo, recreativo, turístico e religioso como monumento central na vida da região.
Iniciamos a visita guiada pela sala da memória (com vídeo
comentado sobre suas origens e passado histórico), pelos parlatórios/locutórios
(dez!, todos com roda que permitia a troca de artigos com os visitantes),
portaria, claustro, refeitório, cozinha, sala do capítulo, antecoro, coro das
monjas, igreja, museu. Cada espaço com suas funções específicas monacais,
convergindo para a centralidade do claustro como lugar de silêncio e de oração,
igualmente de repouso, de contemplação da natureza, fazendo a transição entre o
espiritual (igreja e coro - a norte) e o temporal (cozinha, refeitório,
celeiros, arrecadações, horta – a sul).
Impressiona-nos imaginar o fervilhar quotidiano desta
“colmeia” e dos servidores que a apoiaram ao longo de cerca de 700 anos, bem
como de artistas, oficinas e de mestres que lhe deram grandeza - uns tantos
famosos vindos de outros locais e de longe, como o caso do arquiteto Carlo
Gimac, da Ilha de Malta (para o projeto da igreja).
A igreja, construída entre 1704 e 1730, com seu magnífico
altar, retábulos de talha-dourada, cadeiral, órgão, coro das monjas, túmulo da
Beata Mafalda, esculturas em pedra-ançã (fácil de trabalhar).
As monjas provêm de famílias aristocratas: dispõem de um fabuloso coro para os atos de culto. Foi construído a seguir às obras da magnífica igreja (benzida no dia 20 de outubro de 1718), e se compõe de um luxuoso cadeiral barroco em madeira de jacarandá (proveniente do Brasil) com 104 assentos/“misericórdias” dotados de rosto/carrancas (ano 1725) e de um majestoso órgão ibérico de 24 registos e 1352 tubos/vozes (ano 1743).
O museu conserva um dos melhores e substanciais acervos
regionais de arte sacra do país (cerca de cinco centenas de peças, duzentas
expostas), com pintura, escultura, mobiliário, prataria, ourivesaria,
tapeçaria, paramentaria, documentação. Aqui se situa a biblioteca memorial D.
Domingos de Pinho Brandão e a Real Irmandade Rainha Santa Mafalda que neste ano
de 2026 comemora o 140º aniversário.
Classificado como Monumento Nacional desde 1910, o edificado é propriedade e tutela do Estado português sob a responsabilidade do Património Cultural (IP) que em colaboração com a Câmara Municipal de Arouca e da Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda de Arouca (RIRSMA) garantem a gestão do monumento.
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Organização e conduta da visita:
Conselho Diretor do Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães
(GAMT).
Texto (baseado em informações dos guias que conduziram a visita, no roteiro virtual e no guia da visita interativa (patrimóniocultural.gov), em desdobráveis impressos, numa edição da Real Irmandade da autoria de Pedro Dias, entre outros) e fotos:
Silva Manuel / Manuel Duarte / Ver em Silva Manuel
2ª Visita (tarde) - MUSEU DE SANTA MARIA DE LAMAS
Findo o almoço na vila de Arouca, seguimos para O/NO, em
direção à vila de Santa Maria de Lamas para visita ao museu local.
Aí chegados atravessamos o parque-jardim, ladeando o campo da memória (à direita), tendo a igreja paroquial mais ao fundo, a estátua a Cristo-Rei ao centro e, do lado esquerdo, edificados, figurados e esparsas pedras de monumentos em frente ao edifício do Museu de Lamas, conhecido também por: Museu de Santa Maria de Lamas, Museu de arte sacra Henrique Amorim, “Domus Aurea (casa dourada): arquivo de fragmentos de arte”, Museu Comendador Henrique Amorim, Museu da Cortiça…
Idêntico cenário ao que conheci quando, no relativamente
distante ano letivo de 1981/82, exerci funções de delegado de Português à
profissionalização em exercício no Colégio acoplado. Ao tempo o museu tinha
reduzida relevância como entidade visitável e usufruível. Havia notoriedade no
seu recheio, mas ficávamos sobretudo pela visita ao salão de artefactos de
cortiça que quase se amontoavam perante os visitantes, mesmo assim constituindo
orgulho do diretor– o bracarense Dr. António Joaquim Vieira, fundador do
Colégio, seu diretor e do Museu, e quadro administrativo da Casa do Povo.
O edifício é constituído por dois pisos: o superior (ao
nível da entrada exterior) e o inferior. No total são 16 salas, cada uma com
sua designada temática:
Oratórios, Senhora do Ó, da Capela, Evangelistas, Presépios, Galeria do Fundador, Etnografia, Gabinete de Ciências Naturais, da Cortiça (pavilhão), Escultores, da Capela de Delães…,
recheadas de arte sacra, gravura e litografia, paramentaria,
alfaias litúrgicas, ex-votos, tapeçaria e bordados, cerâmica, objetos de uso
quotidiano, relojoaria, papel-moeda e numismática, iconografia do fundador,
pintura contemporânea, armaria ibérica, lustres e candelabros, insígnias
honoríficas, falerística, mobiliário, artefactos indo-portugueses e
“chinoiseries”, instrumentos musicais, “artes decorativas”, etnografia
portuguesa, estatuária contemporânea, fragmentos ciências naturais, escultura
em cortiça e derivados, arqueologia industrial, mecanismos de transformação da
cortiça…
A partir da receção, a responsável pelo serviço educativo
introduziu-nos na história deste edifício, do seu fundador, Henrique Alves
Amorim, no recheio do museu e conduziu-nos paulatinamente de sala em sala, em
interação do recheio e visitantes.
A fundação e início da construção do edifício e museu remontam à década de 50 do séc. XX, promovidos por Henrique Amorim, “benemérito e industrial ‘corticeiro’, grande colecionador e fundador do Museu de Santa Maria de Lamas”. De 1950 a 1953 é o período de maior recolha e aquisição. Em 1959 o fundador procedeu à doação deste espaço construído e espólio à Casa do Povo da freguesia em preito ao desenvolvimento cultural da freguesia e da sua população. Cerca de 1968 ´é concluída a segunda fase construtiva. Entretanto falece Henrique Amorim com cerca de 75 anos (1902-1977) e segue-se um longo período de 27 anos de “semi-adormecimento”.
A partir de 2003-2004 a direção da Casa do Povo inicia o
“Projeto de Reorganização…” e recorre a um protocolo com a Universidade
Católica. De seguida é criado um Quadro Técnico de pessoal (2005) e o Serviço
Educativo (2006) como estratégia para dinamização de ações e de integração na
comunidade, na região e no país. Segue-se a fase de credenciação do Museu
na Rede Portuguesa de Museus (2009) - conseguida em Diário da República (2018)
-, e a renovação da sinalética interna e externa (2011).
O Museu alberga alguma maquinaria dos primórdios do fabrico
de rolhas e afins, sugerindo o “modus operandi” na transformação.
“Resultante de um ímpeto pessoal assente na recolha quase compulsiva de objetos multidisciplinares, inspirado nos ‘espíritos’ colecionistas (…) dos séc.s XIX para o XX, (…) a estruturação primitiva deste Museu seguiu e tentou aproximar-se da norma expositiva dos ‘Gabinetes de Curiosidades’ ou ‘Quartos das Maravilhas europeus dos séc.s XV a XVII. Verdadeiros espaços de exibição simultânea de objetos artísticos nobres e variados símbolos, fragmentos ou artefactos de cariz global. Reflexivos da riqueza histórica, científica, religiosa, populacional, natural, cultural, intelectual, social, geográfica, económica, etnográfica e material, da Humanidade e do Planeta Terra.”
– lê-se numa página do caderno de textos do Museu.
No seu todo o Museu atinge o patamar de
– lê-se numa outra das páginas do caderno de textos do
Museu.
O antigo salão da cortiça, agora também espaço de auditório,
estava preparado para, no dia seguinte (22 de fevereiro), dar lugar à 4ª edição
do “Ciclo Música de Câmara” em atuação do Grupo “Prisma Quintet”, constituído
por instrumentistas em clarinete, oboé, saxofone, clarinete baixo e fagote,
para interpretação de “The arrival pf the queen of sheba”, “Circusmusiek” e
“Balada e Mistério”.
Regressamos à cidade de Braga e S. Martinho de Tibães.
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Organização e conduta da visita:
Conselho Diretor do Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães
(GAMT).
Texto (baseado em informações da guia que conduziu a visita, no caderno de textos / ilustrações do Museu, e em outras fontes (net) e fotos:
Silva Manuel / Manuel Duarte
Fotos 1ª Visita




















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