Lembrando Percursos Beneditinos GAMT - Porto

Eram meados de Novembro do ano findo quando aconteceu o décimo percurso beneditino. Pelas oito e trinta da manhã de sábado, partimos de Tibães em direção ao Porto. Tínhamos uma visita planeada ao Mosteiro de S. Bento da Vitória, Largo Amor de Perdição, Cadeia da Relação, Igreja de S. João da Foz.
Já no interior do Porto antigo, a autocarro parou nas proximidades do Jardim da Cordoaria e, dali, seguimos a pé até ao Mosteiro de São Bento da Vitória, onde Frei Geraldo J. A. Coelho Dias, OSB, nos esperava para falar do mosteiro, da instituição beneditina e do seu quotidiano monástico.
Penetrámos então pela rua de São Bento da Vitória, rua estreita e algo escura, e detivemo-nos junto a uma monumental fachada de estilo maneirista e barroco. Esperamos uns escassos minutos pelo segundo grupo, que se deslocou de comboio ou em viatura própria, enquanto apreciávamos os fantásticos portões construídos num rendilhado de ferro, encimados pelo brasão da ordem beneditina, que dão acesso ao interior da igreja do Mosteiro.
Transpondo o nobre pórtico de cantaria, tivemos um primeiro olhar do interior do templo de nave única com galilé, transepto saliente e capelas colaterais intercomunicantes. Viramos ligeiramente à esquerda, deparamos com um novo gradeamento em ferro artisticamente trabalhado e subimos rapidamente ao coro alto, onde deparamos com um cadeiral de talha em U de duas filas e espaldares com painéis esculpidos em relevo. É, sem dúvida, a joia mais preciosa da igreja, uma obra de surpreendente beleza do século XVIII. Dali, o nosso olhar ficou fascinado pela panorâmica, pois estávamos no topo, num verdadeiro miradouro que nos permitia admirar o paraíso estético da imensidão do templo: os órgãos simétricos, as abóbadas ritmadas, as esplendorosas sanefas rococó e, ao fundo, o altar-mor.
Aula de Frei Geraldo no Coro Alto S. Bento da Vitória
Começámos a ouvir Frei Geraldo J. A. Coelho falar da vida de S. Bento e do quotidiano dos beneditinos vivido naquele espaço de oração e arte. Descodificou-nos as imagens da vida de S. Bento contidas nos majestosos painéis emoldurados por talha rococó que nos oferecem uma narrativa original. É uma obra-prima de quadros esculpidos em madeira, em relevo, em dourados e policromados. As esculturas douradas e policromadas dos quatro santos beneditinos rematam, centralmente o cadeiral. Entre as várias histórias, recordamos o episódio do corvo e do pão envenenado.
Mas neste espaço deslumbrante também houve, infelizmente, tempo para desencantamentos: deparámos com a inaceitável intrusão de aves columbiformes, crê-se por um vidro partido, que com os seus dejetos estão a contribuir gradualmente para a degradação de parte do cadeiral. Espera-se que a urgente intervenção, pelos vistos não complicada, não peque por tardia.
Degradação do Cadeiral S. Bento da Vitória
Depois disto, descemos à nave central e fomos caminhando e apreciando os altares laterais, os púlpitos estrategicamente situados junto ao transepto com retábulos apoteóticos, a capela-mor com um retábulo barroco imponente ladeado de colunas torsas salomónicas, a sanefa do arco cruzeiro numa ondulação hiperbólica.
Para terminarmos, passámos por um corredor com um lavabo barroco decorado com dois mascarões e entrámos na sacristia com um enorme arcaz e espelhos de estilo rococó. Saímos, despedindo-nos de Frei Geraldo, pela rua das Taipas, apreciando uma iconografia beneditina composta de diversos santos.

Como a hora do meio-dia já apertava, dirigimo-nos à cadeia da Relação, já no âmbito do Jardim da Cordoaria. Passámos no Largo Amor de Perdição, onde a estátua em mármore "Amores de Camilo" do escultor Francisco Simões foi motivo para uma conversa sobre Camilo, os seus amores e a sua passagem forçada pela Cadeia da Relação.
Henrique Expondo a Vida de Camilo
Aqui, o sócio do GAMT, Henrique Barreto Nunes, falou sobre Camilo Castelo Branco, hóspede por duas vezes, ambas resultantes das suas aventuras amorosas: a primeira em 1846, cerca de dez dias, por causa da sua relação com Patrícia Emília de Barros; a segunda, por pouco mais de um ano, entre 1860 e 1861, “incurso no crime de adultério”, praticado com Ana Augusta Plácido. Citou episódios que descrevem o interior da prisão, as personagens invulgares que Camilo recorda nas “Memórias do cárcere” (1862) e ali começou a escrever: o chefe guerrilheiro Milhundres; António J. Coutinho, fabricante de moeda falsa; José do Telhado, salteador célebre, e o general “Caneta”. Referiu que Camilo fez aí diversas traduções, colaborou nos jornais “O Nacional” e “Revolução de Setembro”, redigiu em quinze dias “Amor de Perdição”, encontrou inspiração para outras obras “Maria da Fonte” e “Romance de um homem rico”.

Depois de um breve almoço confraternizador na zona da Cordoaria, pelas quinze horas, voltámos à memória beneditina e visitámos a igreja de S. João Baptista da Foz, a herdeira setecentista da velha igreja de S. João Baptista existente no forte de S. João da Foz.
Interior da Igreja S. João da Foz
Ali chegados, deparámos com uma igreja do século dezoito, de aparência descomplicada, abrigando um extraordinário tesouro barroco. Na fachada, o portal emoldurado e rematado por frontão circular interrompido é encimado por um nicho onde se expõe a imagem de São João Baptista. Nos nichos laterais figuraram, antigamente, as imagens de São Bento e Santa Escolástica. O alçado termina em frontão circular e cruz de pedra, ladeado pelas torres sineiras.

Entrando, deparámos com o interior de uma igreja barroca, de planta longitudinal, nave única, seis capelas colaterais com os diferentes padroeiros e capela-mor, todas com retábulos de talha dourada esplendorosa. Rui Osório, cónego da paróquia de S. João Baptista da Foz do Douro, homem também dedicado às causas do património, acompanhou-nos numa excecional visita guiada, recheada de episódios pessoais relativos ao restauro, asseio e conservação deste deslumbrante templo barroco.
Ao entardecer, regressámos a Braga com os olhos cheios da arte de mestres que tão bem trabalharam a pedra, a madeira e o ouro, alguns de nós já conhecidos.
Aula do Cónego Rui Osório na Igreja da Foz
A visita, de enorme qualidade, foi fortemente participada, excedendo mesmo a meia centena de intervenientes, fator que serve de estímulo à continuidade dos percursos beneditinos. Pretenderia deixar um registo de um enorme agradecimento aos guias extraordinários locais e aos que nos acompanham jornada a jornada, pois sem a sua presença não teríamos acesso a estes monumentos com os seus importantes detalhes elucidativos.

Sócio do GAMT nº 2



Portão de Entrada Rendilhado em Ferro
Orgão de S. Bento da Vitória
Magnífica Vista do Coro Alto S. Bento da Vitória
Majestoso Cadeiral do Coro Alto S. Bento da Vitória


Estátua de Camilo
Retábulo-Mor S. João da Foz
Eduardo Oliveira Explicando a Arte
Guias no Percurso Beneditino

Marcos: documentos de jurisdição administrativa

Cruz de Pau 
Decorria o mandato autárquico, nos inícios da década de noventa, em Mire de Tibães, quando surgiu uma solicitação para atestar se determinada propriedade rústica se encontrava dentro da área administrativa da freguesia. Perante a existência de incertezas, era preciso que a equipa autárquica se deslocasse ao local e fizesse a devida verificação, in loco. E assim se procedeu. No entanto, devido à forte densidade de mato e floresta e à falta de um levantamento objetivo dos marcos delimitativos de freguesia, à época, só foi possível fornecer uma resposta por estimativa ao requerente.

Passaram-se os anos e já neste século, após um terrível incêndio que devastou a encosta do monte de S. Gens/S. Filipe, vertente da freguesia de Padim da Graça, até ao rio Cávado, ficaram visíveis muros divisórios de propriedades e outras pedras. Algum tempo depois, decorria o ano dois mil e dez, a equipa educativa do Mosteiro de Tibães teve a venturosa ideia de propor um safari fotográfico, denominado Caminhada com História, que abrangia também a zona ardida, para mostrar outro tipo de património existente na área do antigo couto de Tibães. Despertava assim o gosto pela descoberta.
Pedroso
Enquanto isto, nascia o Grupo de Amigos do Mosteiro de Tibães (GAMT), associação voltada para o apoio à antiga casa-mãe da congregação beneditina, o Mosteiro de Tibães.
Numa manhã de primavera, durante uma das caminhadas semanais para a manutenção do físico e da alma, realizando o percurso pedestre atrás referido, acordou a ideia do levantamento exaustivo, com suporte histórico, de todos os marcos do couto e de freguesia de Mire de Tibães. Tinha toda a lógica fazê-lo, pois a História grandiosa do Mosteiro e da freguesia de Mire de Tibães o justificava.

É então que o professor e historiador José Carlos Peixoto, filho da terra, e o seu companheiro das andadas, professor Florêncio Gonçalves, com a responsabilidade de serem ambos sócios do GAMT, se metem na ditosa tarefa de achar os marcos de demarcação de fronteiras. Cada dia, era elegida uma zona que segundo a análise dos tombos de delimitação e confrontação nos indicavam a sua existência. Qualquer descoberta era sempre um verdadeiro regozijo. Foi uma empreitada longa e árdua, mas sem dúvida reconfortante, na qual também colaborou o engenheiro José Rodrigues, igualmente sócio do GAMT.
O trabalho investigativo do professor José Carlos foi crescendo durante os dois anos de pesquisa, resultando numa produção científica exemplar que se deu à estampa em 2014 com o título Tibães: marcos e domínios apoiada pela Junta de Freguesia. A memória da terra ficou mais rica.
Cangosta de Sobrado
Contudo, para defender estes verdadeiros documentos pétreos é preciso promover a sua qualificação, criando dignidade no espaço envolvente, diligenciando a sua divulgação através de trilhos orientados e fazendo a sua classificação de interesse municipal. Não se trata de banais marcos de pedra, eles representam uma forma de organização do espaço administrativo sui generis por conter inscrições elucidativas fora do habitual. 

A Junta de Freguesia de Mire de Tibães já interiorizou este apelo e, com a colaboração do GAMT, tem vindo a fazer a sua divulgação ao longo destes dois últimos anos, através de caminhadas pelos marcos de demarcação, por altura da celebração do dia da freguesia, realizando os trilhos de São Martinho de Tibães e de Santa Maria de Mire, antigas divisões administrativas do couto de Tibães.
Segundo as notícias recentemente veiculadas pelos órgãos de comunicação social, o processo de qualificação patrimonial está a ser bem encaminhado, quer pela Junta de Freguesia de Mire de Tibães, que já elaborou a documentação requerida, quer pela Câmara e Assembleia Municipal de Braga, que aprovaram por unanimidade a classificação dos Marcos de Mire de Tibães como património de interesse municipal.
A criação de um roteiro museológico para a reabilitação deste acervo da demarcação está em andamento. Bem hajam, porque o património construído ou natural a todos pertence. Vamos preservá-lo.

Florêncio Gonçalves, sócio do GAMT

Agrafonte
Carregal

Carvalhinho


Fr. Cipriano da Cruz 300 anos: Oração e Arte

Na comemoração dos 300 anos do falecimento de Fr. Cipriano da Cruz, faremos no Mosteiro de Tibães (local onde professou e desenvolveu a sua arte aquele grande escultor beneditino), uma abordagem à relação entre o desenvolvimento do barroco, nas suas diversas manifestações artísticas e a liturgia pós-tridentina. A arte como instrumento ao serviço da fé, pois como ficou estabelecido na Sessão XXV do Concílio de Trento, em Dezembro de 1563, “As imagens de Cristo, da Santíssima Virgem e de outros Santos, se devem ter e conservar especialmente nos templos e se lhes deve tributar a devida honra e veneração…”.
Na nota biográfica que dele fez Fr. Marceliano da Ascensão, escreveu então que nasceu em Braga, sem no entanto, lhe assinalar data e local de nascimento. O seu nome era Manuel de Sousa, filho de Pedro Fernandes e de Inês Gonçalves, moradores junto à igreja de S. Miguel-o-Anjotendo recebido hábito de donato ou leigo do abade geral Fr. Cipriano de Mendonça em 3 de Maio de 1676. Nesta data era já “consumado immaginario” e pretendido por outras Ordens Religiosas, nomeadamente pelos cistercienses do mosteiro de Alcobaça. Preferiu o hábito beneditino, e sendo reconhecido como bom artista, deveria a sua idade andar então pelos 25 anos. Assim, o seu nascimento deverá ter ocorrido pelos anos de 1650. Diz-nos também Fr. Marceliano de Araújo, “que o nosso escultor “para outros Mosteiros fez também imagens”, além das que realizou para Tibães e São Bento de Coimbra”. Há outras obras ainda, nomeadamente em Coimbra, de sua autoria e também fora das Ordens Religiosas.
Nos anos 90 do séc. XVII trabalhou em Coimbra, onde realizou diversas esculturas para o Mosteiro de São Bento e não só, pois na capela da Universidade existe uma imagem de S.ª Catarina que Fr. Cipriano da Cruz executou pelo preço de 12$000 réis, conforme o mesmo escreveu num recibo datado de 28 de Julho de 1691.
Viria a falecer em 11 de Fevereiro de 1716 no Mosteiro de Tibães, tendo sido sepultado no Claustro do Cemitério: Acabou a vida em 11 de fevereiro de 1716 neste Mosteiro de Tibães em cujo claustro esta sepultado, sendo que os effeitos do seo oficio lhe levantão tantas estatuas no templo da fama quantas são as figuras que fes.
                                        (Fr. Marceliano de Ascensão) 
Em 12 de Fevereiro de 2016, 300 anos após a sua morte, prestamos-lhe a devida homenagem. (Mosteiro de Tibaes, às 21h30)

   Paulo Oliveira

Apresentação pública do Protocolo assinado entre a DRCN/Mosteiro de Tibães e o GAMT

Caros amigos:

É com todo o prazer que em nome do conselho director do GAMT vos convido para a apresentação pública do protocolo assinado entre a DRCN/Mosteiro de Tibães e o GAMT no âmbito do depósito, no Mosteiro de Tibães, dos livros doados pela família de Ademar Ferreira dos Santos ao GAMT. A sessão decorrerá no próximo sábado, dia 3, às 16.30 horas na sala do capítulo do Mosteiro de Tibães.

Lembramos que Ademar Ferreira dos Santos (9.12.1952/22.5.2010) ocupa lugar de relevo no panteão das memórias do Mosteiro de São Martinho de Tibães. Membro do conselho directivo da ASPA - Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural – desempenhou papel fundamental no resgate patrimonial do Mosteiro. Os seus artigos no Jornal Expresso de 27 de Março, 13 de Novembro e 10 de Dezembro de 1982 – “Mosteiro de Tibães: quando as árvores morrem de pé”; “Do Mosteiro de Tibães já se vendem as pedras” e “Mosteiro de Tibães: qualquer dia já não há nada para se vender” denunciaram, à escala nacional, a ruína, abandono e delapidação daquele património que amou e estudou profundamente. Investigando a história, trabalhando documentos e memórias, recolhendo depoimentos, produziu o notável trabalho “Mosteiro de Tibães (1834-1864), trinta anos para perder o rasto de uma memória de séculos” publicado no nº 8 da Revista Mínia, apresentada publicamente no Mosteiro de Tibães em Novembro de 1987. Durante vinte cinco anos acompanhou, apoiou e divulgou com entusiasmo todo o trabalho desenvolvido na recuperação e dinamização do Mosteiro de Tibães.
O GAMT aprovou o depósito desses livros no Mosteiro de Tibães não só para o enriquecimento da sua biblioteca mas também para perpetuar a memória de um dos combatentes pela sua salvaguarda e recuperação. Por sua vez a Direcção Regional da Cultura aceitou o depósito e a assinatura do protocolo aconteceu.

As atitudes que estão representadas neste protocolo, merecem as nossas presenças. Apareçam!

Pelo Conselho Director

Aida Mata

ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA DO GAMT

Nos termos dos Estatutos do GAMT, convoco a Assembleia geral ordinária para o próximo da 3 de Maio às 15.00 horas no local habitual (Sala do capítulo do Mosteiro de Tibães).


NB: Se à hora indicada não houver quorum, a mesma Assembleia reunirá com qualquer número de sócios presentes, 30 minutos depois.

Ordem de trabalhos
1-Apreciação e votação de contas relativas ao ano de 2013;
2.Apreciação do relatório de actividades respeitante a 2013;
3.Apresentação e votação das actividades previstas para 2014;
4. Informações. // Outros assuntos.
Inf. suplementar comunicada pela Direcção do GAMT: 
Nesse dia, depois dos trabalhos do GAMT, será assinado o protocolo entre a DRCN/Mosteiro de Tibães e o GAMT para depósito dos livros que a família do Ademar Santos nos doou e que o GAMT decidiu depositar na biblioteca do mosteiro.

Com os melhores cumprimentos

O Presidente da Assembleia

     Aurélio de Oliveira

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Aguardamos a vossa visita.

Agenda de atividades do Mosteiro de Tibães - Mês Abril